sábado, 19 de setembro de 2026

Autonomia em tempos modernos - Versão 2026

Em 2015, eu publiquei uma postagem falando sobre a possibilidade de se adquirir equipamentos com a finalidade do técnico programador/operador ter sua independência do console dos espaços por onde passa.

Na época, eu havia comprado há poucos anos um dos primeiros modelos de interface Art-Net da Lumikit. A interface possuía uma única porta de saída. Não cheguei a utilizar muito, embora tenha me salvo em uma situação específica. Como software que utilizei em conjunto com a interface, usei o Luminair instalado em um ipad que possuía na época.

Daquela época para cá, muita coisa mudou. A empresa Lumikit cresceu e se tornou uma importante referência no mercado nacional. Diversas outras marcas estrangeiras de interfaces começaram a surgir. Hoje, é possível encontrar com relativa facilidade produtos especializados em plataformas de venda online. Diversos novos softwares surgiram no mercado. Alguns fechados e trabalhando somente com determinados equipamentos. Outros, abertos e prontos a trabalhar com qualquer interface. Alguns gratuitos, alguns pagos. Alguns desses podem ser conferidos em uma postagem anterior.

A própria cara do mercado mudou muito com a ascensão do sistema MA2. É possível encontrar no mercado versões "alternativas" muito baratas se comparadas com versões oficiais. De forma geral, hoje é muito mais fácil um profissional possuir seu próprio sistema do que era anos atrás quando escrevi aquele primeiro artigo.

Embora vá na contramão do mercado, coloco aqui alguns itens que adquiri para montar meu pequeno sistema ETC Eos.


Notebook Dell G15



Embora possa soar óbvio, vale lembrar que todo esse sistema deve rodar em um computador. Por acaso, esse é o modelo do meu. Ele possui um bom hardware preparado para lidar com alta demanda de processamento, inclusive gráfico, tornando-o uma boa opção para quem deseja trabalhar com aplicações 3D (cada vez mais comuns hoje em dia e uma área em que começo a dar alguns passos). Vale destacar que, se não existe a necessidade de trabalhar com aplicações 3D, um modelo mais em conta pode ser também uma boa opção. Acredito que só não recomendaria os modelos de entrada porque ocasionalmente pode ser necessário abrir múltiplos aplicativos na mesma máquina e um dispositivo mais simples pode não dar conta de tanto processamento.

A maior desvantagem desse modelo específico é seu tamanho e peso. Ele é maior e mais pesado que a média dos notebooks, o que torna levá-lo de um lado a outro um tanto inconveniente

ETCnomad 1.024


Esse talvez seja o elemento principal de todo meu sistema. Sem esse elemento, não seria possível utilizar o software ETC Eos no meu notebook para operar um espetáculo. (lembrando que o software é gratuito e funciona plenamente, só não enviando sinal sem a presença do dongle).

A linha Nomad é vendida pela ETC em duas versões: dongle e Puck. Na primeira, há apenas o pequeno dispositivo semelhante a um pendrive que deve ser plugado à porta USB do computador. Na versão Puck, há uma pequena caixa que consiste em um mini PC com tudo o que usuário precisa, não sendo necessário um computador.

Além dos dois formatos, são vendidos também em versões com diferentes contagens de parâmetros: 1.024 e 6.144.

Esse equipamento deve ser adquirido via representante oficial da ETC no Brasil (Arte em Cena) ou importado.

Lumikit PRO X4i GM



A interface é outra parte essencial do sistema. É através dela que o sistema se integrará fisicamente ao sistema do espaço. Existem hoje algumas opções no mercado, a maioria trabalhando com o protocolo Art-Net. Esse protocolo é capaz de carregar informações DMX via estrutura de rede (cabos ethernet, switch, roteadores etc.). Esse modelo possui quatro portas de saída, mas existem opções mais baratas com apenas duas, assim como opções mais robustas com mais portas.

Monitor portátil touch Grasep D-Tela03



Com essa peça, começam os equipamentos não essenciais ao sistema. Uma segunda tela é um grande facilitador, permitindo que muito mais informação seja exibida simultaneamente e evitando trocas de janelas. Depois que se começa a utilizar duas telas, fica difícil se acostumar a ter somente uma. O fato do monitor ser touch cria uma facilidade adicional.

Atenção às conexões possíveis da tela e do computador a que se pretende ligá-la. No meu caso, ligo apenas um cabo USB-C / USB-C que transmite tudo de que preciso: energia, sinal de vídeo e sinal de touch. No entanto, isso só acontece porque tanto meu computador quanto o monitor e o cabo que utilizo para ligá-los são compatíveis. Há casos em que o cabo USB irá transmitir somente energia e as outras funções devem ser carregadas por cabos adicionais. Isso é algo que deve ser verificado nas configurações dos equipamentos.

Teclado Korg NanoKontrol 2



Esse é um pequeno teclado midi que permite a adição de faders ao sistema. É um equipamento muito comum aos técnicos de áudio, mas quando configurado corretamente, pode ser uma ferramenta importante também para técnicos de iluminação. Os faders são somente 8 e possuem um curso curto, mas ainda assim são de grande valia. No entanto, o sistema Eos não interpreta nativamente os comandos midi gerados pela controladora. Para isso, é necessário um programa externo que leia o input da controladora e se conecte ao sistema Eos, repassando a informação. Já usei o Luminosus no passado, mas atualmente, o software que utilizo para o mapeamento dos comandos é o Shift-Faders.

Stream Deck+




Quando se tem muitos equipamentos multiparâmetros no espetáculo, especialmente aparelhos moving lights, pode ser bem chato ter que trabalhar com o ML Controls do sistema Eos na tela do computador. Associado ao aplicativo Companion, o Stream Deck+ pode se tornar uma ferramenta versátil tanto para oferecer encoders ao sistema quanto oferecer mais uma interface de input por meio de botões que podem ser extensivamente configurados. 

Mini teclado programável com teclas transparentes





Compacto e altamente versátil, esse teclado vem com teclas "genéricas" que podem ser programadas para gerar quaisquer combinações de teclas de um teclado convencional. Quem trabalha no computador  com frequência sabe como é chato decorar os atalhos de comandos que, no console, teriam teclas específicas. Com um teclado desses, não é mais necessário decorar os atalhos programados. Para realizar esa programação, deve ser utilizado um programa específico oferecido pela fabricante do dispopsitivo.

Vale notar que, sendo genérico, é possível programar o teclado para servir a qualquer software, não somente o sitema Eos especificamente. Eu mesmo tenho um desses para sistema Eos e um outro para sistema MA2.

No exterior, existem companhias que produzem teclados especializados para o sistema Eos (cmd_key, lxkey, JOSC @/2). Infelizmente, ficam caros demais para serem importados. Essa foi minha solução financeiramente possível para tentar produzir algo que se aproxime um pouco desses dispositivos.

Existem alguns modelos de teclados programáveis direcionados ao mercado de caixas de lojas (inclusive com o dispositivo para passar cartão) que acredito que possm funcionar também, mas admito nunca ter testado. A vantagem seria uma maior quantidade de botões.

Além do teclado propriamente dito, comprei também teclas com acabamento transparente pra que pudesse imprimir e colocar as etiquetas de cada tecla de forma segura dentro da capa.



Alimento a esperança de que um dia, uma empresa brasileira como a Lumikit produza uma versão nacional de teclados genéricos em tamanhos maiores e com um preço mais razoável do que as versões importadas.

Cabo de rede retrátil


Para conexão do computador à interface e possivelmente a um roteador (para controle sem fio do sistema, muito útil em afinações), será necessário ao menos um cabo de rede. Normalmente, não precisa ser um cabo muito grande, acredito que 1m é o bastante. Minha sugestão é que esse cabo seja Cat6 para uma melhor blindagem do sinal e tenha conectores RJ45 com bom acabamento para evitar que quebrem.

No intuito de deixar meu conjunto o mais compacto possível, tenho dois desses conectores retráteis. Ocupam pouco espaço e são mais fáceis de organizar que um cabo tradicional.

O único cuidado ao qual eu chamo atenção é o fato de serem cabos chatos (flat). Como parte do protocolo ethernet para proteção do sinal pressupõe o uso de pares trançados, esse cabo chato (que não possui espaço para o trançamento dos cabos), acaba ficando mais vulnerável a interferências. Tratando-se de uma distância pequena e com os devidos cuidados, acredito que isso não seja um problema. Contudo, não custa ficar atento a possíveis interferências de campos eletromagnéticos próximos.

Adaptador DMX



Em minha interface Lumikit, tenho 4 portas de saída DMX de 3 pinos fêmea. Ocasionalmente, chego em teatros onde o sistema DMX foi estruturado com cabeamento de 5 pinos (o que seria o correto no protocolo DMX original). A fim de evitar transtornos nesses locais ocasionais, possuo 4 adaptadores DMX 3 macho / 5 fêmea. (1 para cada porta caso haja necessidade)

Hub USB


Considerando a grande quantidade de periféricos sendo ligados ao computador, é possível que as portas USB fiquem todas ocupadas ou até faltem. Assim, pode ser uma boa ideia a aquisição de um hub USB para expansão das possibilidades de conexão. Sugiro a aquisição de um hub de relativa qualidade a fim de manter confiabilidade e boas taxas de transmissão de dados. Quais os conectores que devem estar presentes é algo que irá variar muito de acordo com as necessidades específicas de cada um.


Régua/extensão Coibeu 1,9m 5 tomadas + USB



Em algumas situações, chegamos ao espaço e temos certa dificuldade em encontrar tomadas disponíveis para ligar tudo que precisamos. Carregando sua própria extensão, é ncessário que o espaço te forneça apenas uma tomada. Alguns modelos possuem ainda a função extra de já ter conexões USB direta, não sendo necessário o uso de fontes para carregar dispositivos.

Luminária LED



Apesar de acessório completamente opcional, esse simples item já me salvou em diversas situações. Originalmente pensada para ser usada com o clipe em livros, essa pequena luminária é recarregável, possui ajuste de intensidade e temperatura de cor. O mesmo clipe que ajuda a prender no livro, pode ser usado para criar uma base e apoiar em algum canto da mesa e iluminar o teclado do console.

Roteador wireless Cisco Lynksys WRT120N


O computador pode ser ligado diretamente à interface sem a interferência de um roteador entre os equipamentos. No entanto, a inclusão do roteador permite que eu possa eventualmente controlar o sistema por um dispositivo móvel (celular ou tablet) usando o aplicativo apropriado. (no meu caso, que trabalho no ecossistema android, utilizo o aRFR)

Considero esse modelo específico interessante porque o aparelho é relativamente fino, permitindo que ele caiba em minha maleta onde carrego o resto do material. Além disso, confio na qualidade dos equipamentos Cisco/Linksys.

Maleta de maquiagem grande com divisórias



Para levar tudo isso de um lado a outro, e até mesmo para guardar em casa, utilizo essa maleta cuja função original seria carregar equipamento de maquiagem. Acho que é um bom produto com acabamento resistente e acredito que meu material fica bem protegido. As divisórias são removíveis e podem ser ajustadas conforme a necessidade. Há também outros tamanhos a venda para atender diferentes necessidades. 

Conclusão


Lembro que tudo isso que foi exposto são as soluções que fui desenvolvendo ao longo de anos. Não comprei todas essas peças de uma vez. São apenas referências que coloco aqui como possibilidades, muito em função da curiosidade do parceiro @nicocaratori. Mais do que uma lista de compras, essa postagem tem também a função de expôr algumas das considerações que levantei ao longo do processo de construção de meu sistema de forma a servir de reflexão para meus eventuais leitores.

quinta-feira, 19 de março de 2026

Conversão de arquivos entre sistemas ETC Eos e grandMA2

Para quem me conhece ou acompanha meu trabalho, é sabido que tenho grande apreço pelo sistema ETC Eos no qual me especializei. No entanto, é inegável o avanço que sistemas grandMA2 tiveram no mundo e principalmente no mercado brasileiro. Ao menos em São Paulo, é muito comum encontrar teatros que operam em um ou outro sistema, quando não em ambos. Pensando em teatro, é bem possível que um espetáculo estreie em um espaço e siga para outro, podendo haver mudança de sistema nessa transição. Portanto, seria interessante que houvessem mecanismos que permitissem uma automatização da transferência de informações entre uma plataforma e outra. Isso pouparia algum tempo e esforço na regravação integral do espetáculo.

A seguir, apresento métodos de conversão de arquivos de show nos dois sentidos (Eos->MA2 e MA2->Eos). Ambos envolvem em algum nível o uso de USITT ASCII, um padrão de formatação de arquivos criado justamente com a intenção de servir como mecanismo de intercâmbio de informações entre diferentes sistemas.

Eos para grandMA2

Dentro do sistema Eos, há uma ferramenta para exportação do arquivo de show já em formato ASCII diretamente. Para acessar essa função, primeiro é necessário acessar o Browser por meio de [Displays].

File > Export > USITT ASCII

Exportação de arquico .asc no sistema Eos

O local de salvamento do arquivo deve ser selecionado. Em seguida, surgem opções sobre especificação do que será exportado. Essa operação gera um arquivo de extensão .asc

De posse do arquivo ASCII, o próximo passo é realizar a importação das informações no sistema gMA2.

Backup > (seleção do local do arquivo) > Ascii Show Read > (seleção do arquivo)

Atentar que a opção "Ascii Show Read" só estará disponível se for detectado um arquivo .asc no local apontado.

Tela de Backup com "Ascii Show Read" desabilitado

Feita a seleção do arquivo, é aberta uma janela com diversas opções para configuração de equivalências entre os dois sistemas. Ao final da operação, as informações estarão importadas para o show no sistema gMA2.

Cabe destacar que essa importação está sujeita a diversas falhas e longe de ser ideal. Muitas informações não serão carregadas como o Fixture Type dos aparelhos e isso consequentemente gera perda de um bocado de informações. As principais informações que são carregadas são de patch simples (canais de dimmer e seus endereços) e as cues com suas informações de nomes, tempos, gatilhos e valores de dimmer em cada uma. Muito ainda terá que ser editado, mas ao menos é montado um esqueleto das cues do espetáculo.

grandMA2 para Eos

Essa segunda opção gera um arquivo resultante de sistema Eos bem mais completo, mas também é um pouco mais trabalhosa.

Na verdade, existem dois caminhos possíveis para realizar essa conversão: o sugerido pela ETC e um outro método não oficial.

A ETC sugere que, caso haja a necessidade de conversão, o arquivo seja enviado para um e-mail específico de seu departamento de suporte que eles devolvem o arquivo convertido em até dois dias úteis.

O outro método depende de um pequeno arquivo escondido na pasta de instalação do software do sistmas Eos. Aqui vale reassaltar que só encontrei o arquivo nas versões mais recentes do software. Não sei a partir de que versão ele foi incluído.

Para encontrar o arquivo, navegar até a pasta de instalação do programa (normalmente "C:\Arquivos de Programas\ETC\EosFamily\v3\Eos"). Nessa pasta, haverá um arquivo executável chamado "gmaconv.exe". Esse é o programa que realiza a conversão. No entanto, o processo não é tão simples.

Tela do GMA to ASC Converter

Primeiro, o programa deve ser configurado com as informações pedidas: pasta de instalação do sistemas gMA2, pasta onde o arquivo resultante será salvo, versão do software Eos etc.

Segundo, há que se criar o arquivo de macro (botão "Create Macro File"). Essa opção gera um arquivo com uma macro que será inserida no show da gMA2 e exportará o arquivo ASCII com as informações do show. No sistema gMA2, acessar

Setup > Import Export > Import > Macros

Na nova tela que surge, deve haver uma opção "export.xml".

Tela de importação de macros no sistema gMA2

Na coluna da esquerda, deve ser selecionado o arquivo export.xml e a macro "Export XML" deve ser selecionada na coluna da direita e sua importação confirmada por meio do botão {Import} logo abaixo. Atentar para o número em que a macro será importada. Irá surgir uma nova macro no show chamada "Export XML" nesse número Quando executada, essa macro gerará uma série de arquivos .xml dentro da pasta de instalação do sistema gMA2 com as diversas informações do show de forma setorizada (sequências, grupos, presets, patch etc.).

Agora voltando para o programa GMA to ASC Converter, deve ser acionado o botão "Convert" atentando para o local onde será criado o arquivo .asc. Após o processo de conversão, o programa pergunta se deve apagar os arquivos xml temporários criados na pasta da gMA2. Essa etapa é opcional.

Agora de posse desse arquivo no formato ASCII, é preciso importar as informações dentro do software Eos. Para isso, acessar o Browser como no processo anterior e seguir o caminho

File > Import > USITT ASCII > As Library Fixtures OU As Custom Fixtures > (local do arquivo)

Haverá a opção de importar os Fixture Types (tipos de aparelho) como opções da biblioteca ou aparelhos personalizados. Na primeira opção, o sistema tentará encontrar equivalências na biblioteca. Na segunda, serão importados da forma que estão. A própria ETC recomenda a segunda opção para evitar problemas.

Abrirá uma janela semelhante à de Merge e de Open onde se pode escolher quais elementos serão importados. Selecionadas as opções e confirmada a importação, o processo é finalizado. Basta revisar e salvar o show no formato do sistema Eos.

Algumas observações:

Vale destacar que dentro do software Eos não é possível acessar qualquer pasta dentro do computador, apenas pastas previamente designadas no aplicativo. A partir da versão 3.3.5, é possível designar novas pastas no computador de forma mais fácil por meio da opção Configure Archives ao final das opções dentro de Files.

Em meus experimentos, informações de cue, grupo, palette, preset, magic sheet (layout) foram importadas de forma bastante eficiente.
O patch foi importado corretamente em sua maior parte, mas canais com múltiplos endereços (Multipacth na gMA2) tiveram problemas, não importando os endereços além do primeiro.
Efeitos não foram importados porque o sistema de efeitos dos dois sistemas é muito diferente para realizar a transposição.
Vale destacar também que o sistema gMA2 tecnicamente não possui a entidade submaster. Existem apenas sequências de uma só cue. Assim, alguns executores que poderiam ser tratados como subs são incorporados como diferentes cuelists.

Ao fim do processo, sempre é importante realizar uma verificação geral dos elementos como em qualquer adaptação de luz, mesmo quando não há troca de sistemas.