sexta-feira, 10 de agosto de 2018

Sobre programação e programadores

Ziembinski chegava ao Brasil na década de 40 com ideias e concepções que dariam início ao moderno teatro brasileiro. Para nós, seria tudo uma grande novidade: a figura do diretor no lugar do ensaiador, períodos mais longos de ensaios, espacialidades mais rebuscadas tanto pela cenografia quanto pela iluminação... Ziembinski nos trouxe tendências do que já estava sendo feito na Europa e até mesmo nos Estados Unidos há algum tempo.

A tendência a esse nosso atraso tupiniquim  fica bem exemplificada pela história acima e, embora muito menor, permanece uma realidade ainda nos dias de hoje. A figura do iluminador começa a ser levada realmente a sério em nosso país apenas em meados da década de 80, em grande parte com a ajuda de Jorginho de Carvalho e os nomes que despontavam nesse período como Maneco Quinderé e Aurélio de Simoni. Daí para uma consolidação das diferentes áreas de atuação dentro da iluminação cênica, ainda foi necessário percorrer um longo caminho.

E os equipamentos importados começaram a chegar, assim como as produções musicais da Broadway que passaram a ser importadas com frequência cada vez maior. A tecnologia se desenvolveu e as mesas digitais não só cresceram em popularidade como também em sofisticação. O profissional de outrora agora precisava entender uma linguagem um pouco mais próxima da linguagem informática. Assim, surgia a figura do programador na iluminação: aquele profissional especializado na mesa de controle da luz que geralmente aparecia entre a montagem e a estreia do espetáculo, apenas preparando a mesa para que outros assumam depois. É bem verdade que, nesses moldes, ainda não é tão comum assim essa figura, ao menos aqui no Brasil. Não poucas vezes, o programador será também o assistente do iluminador e operador do espetáculo. Independente disso, a função cresce em importância.

Dado o quadro apresentado e tomando como livre e vaga inspiração as Leis da Biblioteconomia estabelecidas por Ranganathan, proponho três diretrizes a serem consideradas no exercício da função, em ordem de prioridade:

1) O efeito do iluminador deve ser alcançado
No fim do dia, o que importa é o que se vê sobre o palco. Alguns iluminadores têm um conhecimento técnico mais desenvolvido, outros menos. Alguns te pedirão pra executar determinada tarefa de certo jeito. Outros estão te contratando justamente porque não querem ter que pensar nisso. Nesse caso, esse profissional só quer que você execute o efeito final que ele te pediu. O "como" realizar isso fica a critério do programador. Mas nunca perder de vista que o pedido dele é o foco do trabalho.

2) Poupe o tempo do iluminador
Sabemos que, infelizmente, a luz é um dos últimos elementos a entrar em cena. Os atores ensaiam antes, a trilha vai sendo testada. O cenário é então montado para que os atores "reconheçam o espaço". Só então vem a luz. Portanto, o tempo de programação não costuma ser muito amplo e isso se considerarmos que tudo correrá bem, sem problemas com equipamentos defeituosos ou mudanças surpreendentes de encenações e cenário. Nesse sentido, todo tempo que puder ser poupado é válido. Inclusive, muitas vezes ganha-se não apenas em tempo, mas também na paciência do iluminador. Pensemos que, muitas vezes, ele tem que lidar com um diretor estressado que lhe pede uma série de absurdos e outros problemas. Tudo que puder ser feito para atendê-lo o mais rápido possível está valendo. Portanto, aquele atalho que faz com que você tecle 3 vezes no lugar de 5, aquele efeito que você pode criar pra automatizar determinada função ou aquele preparo que você faz na mesa antes de sentar pra começar a gravar podem parecer que vão te render apenas alguns poucos segundos mas, pense que isso ao longo de horas e dias pode sim fazer diferença.

3) A luz não é sua
Como colocado anteriormente, a função do programador muitas vezes é exercida também pelo operador, assistente ou até iluminador. No entanto, isso não é a regra. Muitas vezes você programa o espetáculo e outra pessoa irá operá-lo ou, talvez, manipular o arquivo. Pode haver também o caso em que se faz a programação de um espetáculo a quatro ou mais mãos. Nesse caso, é necessário que as partes envolvidas estejam minimamente inteiradas do que se passa e como certos efeitos foram gerados na mesa. Do contrário, caso haja qualquer problema ou o diretor resolva inventar alguma mudança, o outro não saberá ou demorará mais para resolver. Nesse sentido, é importante ponderar sobre quais mecanismos da mesa utilizar para atingir certos efeitos. "Será que fulano saberá lidar com isso?" é a pergunta que se deve fazer. Com isso, não quero dizer para se descartar qualquer mecanismo mais complexo por medo de que o outro não entenda. Acredito apenas que se deva levar em consideração quando de uma tomada de decisão. Deixar claro o que foi feito, estabelecer comunicação (e documentação!). Por fim, dada a oportunidade, seja generoso e ensine algo novo ao teu colega.

Essas são as 3 diretrizes que acredito serem essenciais para uma boa relação de programação na ordem de prioridade que acredito que devem ser levadas. Porém, ressalto o uso de diretrizes no lugar de regras. Trabalhamos com arte e com projetos. Cada dia será diferente do outro e lidaremos com os mais diversos indivíduos e situações. Utilizando-se de bom senso, claro que as prioridades podem (e devem!) ser revistas e adaptadas às necessidades particulares. No final, o que importa é que todos voltem para casa satisfeitos com o bom trabalho realizado.

domingo, 16 de agosto de 2015

Autonomia em tempos modernos

Situação: você acaba de ficar alguns meses em cartaz cuidando da luz de um espetáculo. Já conhece de todas as formas o equipamento e o espaço onde a peça está. Chegou a hora de viajar. Serão alguns finais de semana, cada um numa cidade e, consequentemente, num teatro diferente. Não haverá muito tempo pra montagem e você terá que dividir palco com cenografia. Quando você se depara com a mesa, algo que você nunca viu e pior: aquele disco/pendrive em que você tinha o show salvo de nada adianta nessa nova mesa estranha. Um bom tempo será perdido na reprogramação.

A situação descrita acima pode soar familiar pra muitos. Esse tipo de adversidade, é claro, nos faz procurar soluções práticas, nos tornando profissionais mais agéis. Mas há situações em que o tempo simplesmente não é suficiente e é necessário ter cartas na manga. Isso aconteceu comigo na última cidade da turnê de Hécuba. E graças a soluções modernas que existem hoje em dia, pude resolver a questão. Falo de ter um sistema de controle de luz próprio.

Cada vez mais, empresas lançam no mercado soluções para espetáculos de pequeno e médio porte que o técnico/operador/iluminador possa levar consigo. Assim, o profissional terá consigo uma ferramenta familiar e, possivelmente, o seu espetáculo já programado, bastando fazer pequenos ajustes e o patch. Basicamente, o espetáculo será rodado a partir de um computador ou tablet (talvez até um telefone).  Apresento a seguir alguns dispositivos de que tenho conhecimento.

Interface DMX

Essa talvez seja a peça fundamental de seu sistema. Afinal, como você fará pra ligar seu dispositivo ao rack e/ou aparelhos multiparâmetros? São esses os aparelhos responsáveis por fazer essa comunição. Eles variam em marca, modelo, funcionalidades e até mesmo em conexões mas todos têm o propósito comum de fazer seu PC/Tablet falar com os refletores. Vale ressaltar que só vi esse tipo de aparelho voltado para sistemas digitais uma vez que tratamos de protocolo DMX.

Para exemplificar, aconselho ver a marca Lumikit, vendida aqui no Brasil por um preço bastante acessível. Falo dela por conhecimento de causa, uma vez que possuo a interface de um universo e que já utilizei algumas vezes.




Na prática, é uma caixinha com uma entrada ethernet (padrão de rede de computadores) e uma entrada XLR de 3 pinos (padrão difundido de conexão para envio de sinal DMX) que faz a conversão de um pra outro. Pensando na entrada ethernet, podemos deduzir que qualquer coisa que possa se ligar a uma rede de compuatdores (atribuindo-se um endereço IP) poderá se ligar à interface. Assim, computadores ou tablets e telefones (conectando-se à interface por meio de adaptadores ou roteadores), são capazes de enviar sinal de controle para os aparelhos de seu espetáculo.

O Lumikit, assim como outras interfaces, é vendido de acordo com a quantidade de universos e algumas outras funções periféricas. Contudo, o princípio básico é o mesmo pra todos: por meio de um protocolo intermediário chamado ArtNet, faz essa "tradução" de um meio para outro. Mas o que seria um protocolo, afinal? Não sou nenhum técnico em informática ou eletrônica, mas tentarei explicar segundo meu entendimento: trata-se de uma série de padrões de comunicação e linguagem que estabelecem a forma como dados serão enviados através de um meio. Isso não diz respeito, necessariamente, ao meio físico em que os dados trafegam uma vez que o mesmo cabo de sinal que usamos pro protocolo DMX é usado também pelo pessoal de áudio pra trafegar os seus sinais. Outro exemplo disso seria o fato de muitas mesas de luz já utilizarem hoje entradas ethernet diretamente no lugar das entradas XLR.

O software

De posse de uma interface que conecte seu dispositivo controlador ao sistema da casa, chegou a hora de escolher o software que fará esse controle. Aqui, cabe um cuidado: muitos softwares que existem hoje no mercado, a maioria gratuitos, funcionam com alguns tipos de hardware específicos. Portanto, ou procura-se um conjunto específico ou compra-se uma interface genérica que "converse" em ArtNet para que se possa usar qualquer software que se utilize da referida linguagem. É oferecido um software desse tipo no site da Lumikit. Tenho ressalvas quanto à interface do programa e sua operabilidade, mas o fato é que ele funciona. No campo dos dispositivos móveis, já foram criados também alguns aplicativos, uns mais simples, outro mais completos.

Embora caro, recomendaria o Luminair para iOS. Ainda é um dos aplicativos com melhor interface e mais completos que encontrei. Tem uma série de funcionalidades que faltam, principalmente pra quem pretende rodar um espetáculo utilizando cues mas é suficiente para rodar espetáculos simples.

Já no Android, indicaria o Art-Net Controller. Acredito que a interface mereça melhorias, mas a funcionalidade é interessante. Para quem quiser testar, tem uma versão gratuita porém limitada.

As configurações de cada dispositivo e softwares são particulares e, por isso, não me alongarei no assunto. Lembrando que o uso de aplicativos em tablets ou celulares requer o uso de um roteador. Nesse caso, aconselho a colocação do roteador o mais próximo possível ao aparelho rodando o aplicativo e que se use o aparelho ligado à fonte na tomada. O protocolo DMX é contínuo e irá ocupar muita banda da conexão. Esse envio ininterrupto de dados exigirá bastante da bateria. Por fim, é recomendável utilizar uma conexão dedicada. É bom manter sempre em mente a ideia de evitar qualquer coisa que possa interromper ou deturpar a conexão de seu sistema afinal, essa falha pode gerar ruídos no resultado final da luz no palco.

sexta-feira, 19 de abril de 2013

The book is on the... stage?

Esse blog nasceu de uma viagem. Foi em 2011 quando fui a Madison para o evento da ETC. À época, tinha grande interesse em entender, principalmente, as formas e relações de trabalho no campo da luz praticadas lá fora. Tive que estudar um bocado pois não bastava simplesmente falar inglês, agora precisava de um inglês técnico. Seria necessário entender ao menos os principais termos teatrais se eu quisesse ter alguma chance de me comunicar bem com as pessoas de lá. Assim, iniciei um processo de pesquisa de terminologias, de tradução mesmo. Mas devo admitir que foi um pouco complicado uma vez que não encontrei essas informações centralizadas em lugar algum. Tive que buscar diversos sites, ler muita coisa e deduzir um bocado de outras. O pequeno glossário a seguir é uma tentativa de facilitar outros que, porventura, passem pela mesma situação.

Apron -> Litearalmente, é mais usado como avental. Porém, existe um outro sentido ocasionalmente usado de elemento apêndice, anexo e é nesse sentido que se encaixa o seu uso teatral. O apron é aquilo a que normalmente nos referimos como proscênio, ou seja, aquela região que se estende pra além da boca de cena em direção à plateia. Quando temos um palco em que essa região é grande e chega a ficar cercada de público pelos três lados, ele pode ser chamado de apron stage ou thrust stage.


Esquema de palco à italiana
Fonte: Wikipedia - Box set (theatre) 

Backdrop -> Rotunda, grande pano preto colocado ao fundo do palco para fechamento da caixa preta.

Backstage -> Toda a área adjacente ao palco por onde transita a equipe do espetáculo, incluindo aí não só as coxias mas também camarins, copa etc.


Beam bender -> Aparato espelhado que se encaixa à entrada de porta-gel de um aparelho para permitir a reflexão da luz e gerar novas possibilidades de ângulos de luz.

Boom -> estrutura verticais para se fixar refletores além das varas, muitas vezes utilizados para luz lateral.

Um Beam Bender em um elipso preso a um Boom



Booth -> Cabine.

Cabine de tradução
Fonte: Wikipedia

Break a leg -> Expressão equivalente ao nosso merda, traduz-se literalmente como "quebre uma perna".

Busking -> Expressão usada quando se programa/opera determinado show sem roteiro pré-definido ou com pouco ensaio. No Brasil, muitas vezes refere-se a essa modalidade como "operar na mão", geralmente deixando os efeitos separados e acessíveis por meio de faders e outras formas de comando fáceis. Também pode ser referido como punting. Como curiosidade, fora do contexto da iluminação cênica, a expressão busking refere-se a apresentações artísticas gratuitas em lugares públicos no modelo como muitos musicistas e artistas circenses trabalham. Referência: http://www.onstagelighting.co.uk/busking-stage-lighting-course/

Clamp -> A garra de um refletor que serve para fixá-lo a estruturas como varas ou torres laterais.

Uma garra tipo C

Console -> Mesa de luz. O certo seria dizer Lighting Console uma vez que temos também consoles de som, mas reduzimos a Console por partir do pressuposto que estamos tratando do âmbito da luz. Em alguns raros casos, podemos ouvir Lighting Board, mais próximo de uma tradução literal.

   
Console ETC ION XE


Cyclorama -> Ciclorama, tela branca normalmente colocada ao fundo do palco e muito usada para criação de efeitos de luz coloridos. Muitas vezes referem-se a ele simplesmente como Cyclo  ou Cyc. O ciclorama tem esse nome porque, nos teatros antigos de palco grande, a tela de fato tinha um formato semicircular.

Device -> Dispositivo.

Dressing Room -> Camarim.

Electrician -> Técnico de iluminação. O chefe da equipe de iluminação é denominado Master Electrician. É curioso que, lá fora eles sejam reconhecidos por esse termo. Aqui, tecnicamente, esses profissionais também são reconhecidos como eletricistas pelo Sindicato, constando em suas carteiras de trabalho o DRT como Eletricista de Espetáculos.

ERS -> Elipsoidal Reflector Spotlight. Um dos muitos nomes que recebem os refletores elipsoidais. Muitas vezes são chamados também de Profile Spotlight ou simplesmente de Profile.


Refletor elipsoidal ETC Source 4 de grau fixo (não especificado)

Fonte: ETC


Filter -> Filtro. Usado para designar as gelatinas que usamos nos refletores. Também pode ser usada a palavra gel, mas filter geralmente soa mais técnico e formal.


Filtros cortados e encaixados em portas-gel

Fixture -> Refletor. Contudo, refere-se não somente  refletores cênicos, mas pode ser usado em relação a qualquer tipo de aparato criado com o intuito de emissão de luz como arandelas e lustres.

Focus, to -> Falso cognato, esse termo é o verbo to focus que refere-se ao ato de afinar a luz.

FOH -> Expressão normalmente encontrada em mapas  de produções em grandes teatros, é uma sigla que significa Front Of House, referindo-se a posições que encontram-se fora do palco, normalmente nossas "sancas" ou quaisquer espaços que façam uma luz frontal em relação ao palco.

Ground -> Literalmente, chão. No âmbito da iluminação, usado para designar o terra na fiação elétrica.

Lift -> Elevador ou qualquer dispositivo que faça as vezes de. Quando verbo, to lift, significa levantar algo (levantar a si mesmo é get up)

Lighting -> Iluminação. Atentar para a sutil diferença entre LightING e LightNING. O segundo significa relâmpago.

Fonte: desconhecida

Off stage -> Qualquer área fora do espaço de ação cênica.

On stage -> Área do palco vísivel ao público onde ocorre a ação cêncica.


Pipe -> Numa tradução literal, refere-se a qualquer tipo de tubo ou cano. No âmbito da iluminação, trata-se das varas onde são pendurados os elementos do espetáculo. É muito comum ver em mapas de luz a expressão LX Pipe ou LX Bar para referir-se especificamente às varas destinadas a material de iluminação.

Pit -> Fosso. Muito utilizado na expressão orchestra pit, fosso da orquestra

Plot -> Mapa de luz. Normalmente referido como Lighting Plot ou Light Plot.

Power -> Literalmente, poder. Na elétrica, refere-se à quantidade de trabalho sendo executada ou potência medida em  Watts.

Programmer -> Programador. É interessante notar a presença forte desse profissional no âmbito do grande teatro norteamericano. Lá, é possível encontrar indivíduos que vivem desse trabalho enquanto aqui no Brasil ainda não seja dada a devida atenção a tal função. Especializam-se no controle de consoles de luz e trabalham junto ao Iluminador para programar todo o espetáculo da forma mais eficiente possível. Normalmente afastam-se do projeto a partir da estréia.

Prop -> Adereço.



Mesa de adereços
Fonte: Broadway.com

Proscenium -> Cuidado com esse falso cognato. Essa palavra não tem o mesmo sentido de nosso proscênio (ver apron). Em inglês, essa palavra assume a forma de nossa boca de cena, ou seja, a estrutura que moldura o quadro do palco.

Punting -> Ver Busking.

Rehearsal -> Ensaio.

Run -> Tempo de duração em que um espetáculo está sendo produzido. Ex.: (...) "this small mirror spot enjoyed a 30-year production run (...)" poderia ser traduzido aproximadamente como "esse pequeno spot espelhado durou uma produção de 30 anos".

Stage -> Palco.

Stagehand -> Contrarregra.

Stand -> Suporte. Podem ser de vários tipos. Music Stand, por exemplo, seria uma estante de partitura. Light Stand podem se referir a suportes a aparelhos luminotécnicos.

Strike -> Desmontagem de um espetáculo após o término da temporada.

Trapdoor -> Termo geral usado pra definir alçapões. No âmbito teatral, refere-se a quarteladas ou outros mecanismos que permitam abertura para a parte inferior ao palco por onde possam subir peças de cenário, equipamentos e o que mais for necessário em cena.


Fonte: Globe Theatre Pinterest

Venue ->Numa tradução literal, "local". No âmbito teatral, refere-se ao que normalmente denominamos casa ou espaço. É o local onde se dará o evento ou espetáculo.

Wings -> Coxias. Assim como definimos "Coxia esquerda" e "Coxia direita", também diz-se Left Wing e Right Wing.

Wrench -> Chave num sentido geral de ferramenta. A chave inglesa que utilizamos bastante para fixar refletores pode ser chamada por alguns nomes como adjustable wrench (EUA) ou adjustable spanner (Reino Unido). Nos EUA, é conhecida também como crescent wrench devido a uma fabricante tradicional e famosa de ferramentas chamada Crescent.

Yoke -> Alça de um refletor normalmente presa à sua lateral.

Partes de um elipsooidal

Ao longo do tempo, pretendo adicionar mais termos com os quais me depare. Fiquem a vontade pra sugerir ou corrigir outros.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Microempreendedor Individual

Desde que comecei a trabalhar no meio teatral, tenho me deparado frequentemente com um problema bastante prático e de ordem burocrática: o pagamento. Sabemos que, muitas vezes, lidamos com instituições ou espetáculos que receberam dinheiro por meio de leis de incentivo cultural e, por isso, exigem a emissão de notas fiscais para que possam efetuar o pagamento. De certa forma, a Cooperativa Paulista de Teatro se propõe a sanar esse problema, representando judicialmente seus afiliados por meio de seu CNPJ e permitindo a emissão de notas além de inscrição em editais.

O problema surge quando nos vemos obrigados a pagar as várias taxas e descontos a que a CPT nos submete. Pagamos FADs anuais além dos descontos sobre o valor bruto dos serviços que prestamos como taxas administrativas e diversos impostos. Como se isso não bastasse, temos de lidar com a burocracia inerente a uma instituição do porte da CPT, o que acaba atrasando o recebimento do dinheiro por vezes.

Uma possível solução pra isso seria abrir uma empresa própria. Assim, teríamos CNPJ, poder de emissão de notas e toda a administração estaria centralizada em nossas mãos. Mas então nos deparamos com os custos relativos a essa solução. Afinal, teremos taxas e contador a serem pagos. A menos que o empresário tenha um grande fluxo de trabalhos de alto valor (definitivamente, não é o meu caso), os gastos não compensam a abertura de uma empresa comum. O que poucos sabem é da modalidade de empresário conhecido juridicamente como Microempreendedor Individual.

Segundo o Portal do Empreendedor:

"Microempreendedor Individual (MEI) é a pessoa que trabalha por conta própria e que se legaliza como pequeno empresário."


Na prática, isso significa que você abre uma empresa de um só funcionário (é possível que haja um segundo funcionário, mas isso é outro tópico mais avançado), capaz de emitir notas sem nenhum tipo de taxação sobre as mesmas. Claro, há detalhes a serem observados:

- O rendimento bruto da empresa não pode ultrapassar R$60.000,00 anuais
- Embora não haja taxação percentual sobre o valor das notas emitidas, deve ser paga uma taxa fixa mensal de R$38,90 (no caso de quem for prestador de serviços) a ser reajustada de acordo com o salário mínimo
- O MEI foi criado para facilitar a formalização de profissionais de áreas antes não reconhecidas e não abarca todas as profissões, privilegiando as menos favorecidas

Desse valor de R$38,90, boa parte (em torno de R$33,00) é referente a INSS, o que é bastante interessante pra nós, autônomos, que muitas vezes esquecemos de criar um plano de previdência no início de nossas carreiras.

Mas, como disse, nem todas as profissões foram vislumbradas pelo programa MEI uma vez que ele pretende atender a uma massa de trabalhadores que tendem a atuar na informalidade (não que este não seja nosso caso, mas...) como pipoqueiros, sapateiros, vendedores ambulantes etc.

Assim, surgem duas listas a que devemos atentar: a primeira é a lista de atividades permitidas pelo MEI nacional que se encontra aqui. Outra é a lista de atividades permitidas em seu município. Sim, pois após seu cadastro na Receita Federal, será necessário um cadastro também na prefeitura onde você exerce sua função, devendo o profissional estar em dia com ambos os órgãos. No meu caso, como moro em São Paulo, sigo a lista encontrada aqui.

Agora falemos de alguns pontos importantes a respeito dessas funções. Primeiro: quando do cadastro de sua empresa, você pode escolher até 15 funções diferentes para a mesma. Isso significa que sua empresa não precisa se restringir a oferecer apenas um tipo de serviço, mas vários. A natureza do serviço prestado será discriminada quando da emissão da nota fiscal. Portanto, vale a pena escolher algumas funções periféricas mesmo que elas não pareçam serem necessárias num primeiro momento.

A parte confusa: os códigos. Existe um tipo de codificação criada pelo IBGE chamada CNAE (Cadastro Nacional de Atividades Econômicas). O CNAE se propõe a catalogar as mais diferentes áreas profissionais e organizá-las por meio de organogramas. A Receita Federal utiliza esses códigos para a definição de atividades de sua empresa. Mas atentemos pro fato de que o MEI nos define funções de atuação enquanto o cadastro na RF nos define áreas de atuação. Portanto, na lista do MEI, aparecerá Técnico(a) de Sonorização e de Iluminação enquanto no site da receita aparecerá Atividades de Sonorização e iluminação. Esse detalhe pode parecer bobo num primeiro momento, mas você verá como ele terá mais relevância logo adiante.

Até o início do ano passado, não havia a função Técnico(a) de Sonorização e de Iluminação. Havia a função Disk Jockey (DJ) ou Video Jockey (VJ). Contudo, ambas as funções pertenciam à mesma áreaAtividades de Sonorização e iluminação. Quando fiz meu cadastro na prefeitura de São Paulo, eles analisaram as áreas selecionadas. E, pra minha surpresa, a prefeitura se utiliza de uma nomenclatura e códigos diferentes das da RF ou do MEI. Assim, realizei meu cadastro como DJ e emitia nota como Operador de luz (à época do espetáculo Hécuba) pois aparecia simplesmente Espetáculos Teatrais no código do serviço prestado da nota.

Devo admitir que, no início, tive receio de ser pego em algum tipo de malha fina que detectasse minha pequena contravenção. Um ano inteiro se passou. Foram cerca de nove notas emitidas e uma pequena declaração de rendimentos feita e não tive qualquer tipo de problema. Não que isso fosse um problema hoje em dia já que a minha função principal almejada já foi regularizada (Técnico de...). Então, fui além. Hoje atuo no espetáculo Hamlet, com direção de Ron Daniels e protagonizado por Thiago Lacerda. Continuo emitindo a mesma nota com o mesmo código de serviço, mudando apenas a discriminação do serviço. Detalhe: atores não foram contemplados pelo MEI.

Assim como eu, tenho outros colegas que também se utilizam dessa falha do sistema e emitem notas pra áreas não contempladas pelo programa.

Com isso, segue aí uma lista de atividades do MEI que apresentam alguma ligação com áreas artísticas:

- TÉCNICO(A) DE SONORIZAÇÃO E DE ILUMINAÇÃO- DISC JOCKEY (DJ) OU VIDEO JOCKEY (VJ)
- EDITOR(A) DE VÍDEO
- FABRICANTE DE LUMINÁRIAS E OUTROS EQUIPAMENTOS DE ILUMINAÇÃO
- FOTÓGRAFO(A)
- FILMADOR(A)
- INSTRUTOR(A) DE ARTES CÊNICAS
- INSTRUTOR(A) DE MÚSICA
- PROMOTOR(A) DE EVENTOS
- HUMORISTA E CONTADOR DE HISTÓRIAS
- CANTOR(A)/MÚSICO(A) INDEPENDENTE
- DUBLADOR(A)
- LOCUTOR(A) DE MENSAGENS FONADAS E AO VIVO
- MÁGICO(A)
- PIROTÉCNICO(A)
- INSTRUTOR(A) DE ARTE E CULTURA EM GERAL

Claro que essas são apenas algumas que encontrei e que considerei que pudessem ser úteis. Cada caso será um caso e cabe a você analisar o que serve.

Para se enquadrar no MEI, em tese, é possível fazer o cadastro direto pelo Portal do Empreendedor. Mas para quem mora em São Paulo, sugiro uma ida ao SEMEI, órgão da prefeitura criado especialmente para esclarecer e ajudar na criação de novos MEIs. Lá, as atendentes farão teu cadastro junto à RF e te encaminharão com os documentos certos à prefeitura. O processo todo, até poder emitir nota fiscal, demora cerca de duas semanas. Na primeira, haverá o pedido de CCM (Cadastro de Contribuinte Mobiliário) de pessoa jurídica (pra quem tem CCM de pessoa física por conta da CPT, haverá a criação de um novo). Na segunda, será o tempo de espera pra que sua Senha Web seja liberada pra uso depois de pedido junto à prefeitura. De posse dessa senha, você acessa o sistema da Nota Fiscal Paulistana pra emitir notas.

Um ponto importante a lembrar é de verificar o regime de tributação no primeiro acesso ao sistema. Ele deve ser o Simples Nacional. Do contrário, o governo lhe cobrará taxas indesejáveis.

Creio que, em resumo, o ponto importante quando da decisão acerca das atividades é observar áreas que sejam ao menos tangentes ao serviço esperado. Hoje, conto com essa discrepância entre os sistemas do MEI, da RF e da prefeitura de São Paulo. Não sei se é assim em todos os municípios. De qualquer forma, os técnicos de luz e som já têm aí uma boa opção pra resolver seus problemas de nota.

Câmbio, B.O.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Viagens Troianas - Parte 2

Sei que faz bastante tempo, mas falarei do fim da turnê do Hécuba ao menos para dar um desfecho ao assunto e relação dos teatros. Pelo grande tempo, devo ter esquecido muitos detalhes, mas tentarei falar do que lembro. Os teatros seguintes à última lista foram:

Teatro Pedro II, Ribeirão Preto;

Teatro Municipal de São José do Rio Preto;
Teatro São Pedro, Porto Alegre;

Teatro Pedro II -> Lindo teatro em formato ferradura, acústica impecável, grande palco. No entanto, uma característica bastante peculiar: possui uma enorme quantidade de refletores de 2kW e quase nenhum de 1kW. Além disso, as varas, embora elétricas, não são devidamente contrapesadas, o que nos obriga a manter refletores em certas varas para o simples propósito contrapeso. Bastante estranho, mas foram problemas facilmente contornáveis. O que me incomodou muito mais foi a atitude de um dos funcionários que ficou no turno da noite e seria o responsável por me ajudar na afinação. Mal havia chegado, estava no teatro há apenas uma hora e queria transferir a afinação da luz para o dia seguinte de manhã. Claro, ele não estaria lá nessa situação. Convencemos o funcionário de que deveríamos ficar e procedemos com a afinação. Nessa situação, onde dispunha somente desse funcionário e de um garoto sem tanta experiência para realizar a afinação, meu sistema de controle remoto (falarei sobre ele em outro post) fez-se essencial para ganhar tempo.


Teatro Municipal de São José do Rio Preto -> Aqui não há muito que dizer. Teatro grande, mas simples, equipamento relativamente velho, mas bem cuidado. Uma sala para o rack no canto do palco para a montagem. Uma mesa ETC Express 24/48. No proscênio, duas varas, uma SOBRE a outra (ao invés de uma atrás da outra) criando varas em alturas diferentes no lugar de distâncias diferentes. Havia dois técnicos na casa que me atenderam muito bem.


Teatro São Pedro -> E chegamos ao último teatro de nossa turnê onde fecharíamos nosso ciclo de apresentações. O teatro São Pedro é bastante famoso tanto em Porto Alegre quanto no resto do Brasil entre outras coisas pela administração de Dona Eva, uma senhora que cuida desse teatro com punho de ferro, mantendo seu alto padrão de qualidade. Teatro do tipo ferradura, possui um palco de tamanho médio, isso graças ao grande espaço ocupado por elevador e espaços para maquinaria. Possuem uma grande equipe de técnicos e um elevador que vai do fosso e surge de um alçapão no centro do palco o que é ótimo para levar cenário e equipamento cênico. São bastante rígidos em relação a cronograma e medidas de segurança. Enquanto o alçapão estava aberto, havia cones com correntes em seu entorno e não me foi permitido fazer qualquer tipo de montagem dentro do palco. Assim, fiquei um bom tempo coordenando as equipes que montavam nas frisas. À noite, durante a montagem, tivemos problemas sérios com o cenário. Assim, interrompi a montagem de luz e não realizei a afinação para que nosso cenotécnico pudesse ter luz, espaço e calma para resolver seu problema. Com isso, tomei uma decisão ousada: percebendo que não conseguiria afinar E programar toda a mesa para o espetáculo à noite (a mesa oferecida pelo teatro era uma Avolites Pearl 2010, na qual eu nunca tinha operado esse espetáculo e, portanto, não tinha um show salvo), resolvi operar utilizando meu ipad. Eu já o havia utilizado para processos de afinação de luz, mas nunca para operação. Já de posse dos canais, fiz o patch assim que cheguei ao hotel naquela noite e, com isso, possuía o show inteiro montado. Tive que fazer alguns leves ajustes devido à dinâmica particular do aplicativo do ipad e tive que pensar, pela primeira vez, nos tempos de cada transição. Sim, até então eu sempre operei na mão porque preferia assim e o espetáculo não tinha tantas Cues. No final, tudo correu relativamente bem. Havia ajustes a serem feitos do primeiro para o segundo dia, a luz não ficou perfeitamente operada e pude perceber algumas limitações do aplicativo que utilizei. Mas o mais importante, pra mim, foi que finalmente tive a oportunidade de testá-lo plenamente. Talvez eu não devesse ter feito isso num dia em que o diretor estava presente, mas tudo pelo bem da ciência!


E assim termino minha pequena saga com o espetáculo Hécuba. No geral, posso dizer que foram nove cidades de muito aprendizado, muitas felizes experiências e um trabalho do qual me orgulho muito. Fiz amigos, conheci pessoas e lugares e me considero um profissional bem mais capacitado depois disso tudo.


Cambio, B.O.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Viagens troianas - Parte 1

E vieram as próximas. Escrevo agora de meu quarto de hotel em São José do Rio Preto onde cheguei há algumas horas. Acordo amanhã cedo pra ir ao Teatro Municipal de SJRP fazer a montagem pra apresentações no sábado e no domingo.

Até agora, passamos pelos seguintes teatros:

Teatro Alterosa, Belo Horizonte;
Teatro Santa Isabel, Recife;
Teatro Municipal de São José dos Campos;
Teatro Coliseu, Santos;
Teatro Guaíra, Curitiba;
Teatro Municipal de Santo André;

Foram muitas experiências bacanas, outras nem tanto, mas certamente um aprendizado. Tentarei fazer rápidos comentários sobre cada um dos lugares.

Teatro Alterosa -> Equipe eficiente, relação de materiais razoável. A mesa é uma ETC Express 24/48 e possuem um equipamento de áudio mínimo. Apenas um dos funcionários chegou a me incomodar um dia porque haviam uns dois ou três refletores que quis reafinar no dia seguinte e o indivíduo ficou reclamando por isso.

Teatro Santa Isabel -> Feliz surpresa, fui esperando algo bem pior do que encontrei por lá. Tive um boa equipe à minha disposição e uma relação boa de materiais. A mesa era uma ETC Ion, fato que adorei. O único problema que tive foi em relação à escada que eles utilizam pra afinação. Grande demais, com rodinhas e travas laterais que seguram as pernas na posição, a escada é totalmente segura, mas completamente impraticável pra passagem por dentro de cenários. Além disso, foi meu primeiro desafio em um teatro do tipo "ferradura".

Teatro Municipal de São José dos Campos -> Sem dúvida, a ovelha negra dessa lista. Esse foi o teatro em que, com certeza, me deparei com a maior quantidade e os piores problemas. Com apenas dois técnicos, um de som e outro cenotécnico, o teatro não possui alguém responsável pela luz. As varas são travadas com cadeados e você precisa chamar o cenotécnico pra poder movê-las. E quando você mais precisa dele (lembrando que ele passa o resto do dia sentado nas cadeiras da plateia dormindo ou fazendo coisa alguma), onde ele está? Certamente não onde você gostaria que ele estivesse. Além disso, o equipamento, pela falta de um técnico que cuide, está em péssimo estado de conservação e faltando itens simples (eles têm muitos PCs, mas nenhum barndoor, por exemplo). Como se os problemas do teatro não bastassem, pegamos um péssimo produtor local que contratou apenas um cara pra me ajudar na montagem. Enfim, um lugar pra não querer voltar.

Teatro Coliseu -> Aqui, o problema é notado logo na chegada: o teatro não possui qualquer equipamento de iluminação. Isso mesmo, nada. Nenhum refletor, nenhuma mesa, nenhum rack. Apenas varas onde pendurar o equipamento. Isso se deve a um acidente que aconteceu quando de uma reforma anos atrás em que o engenheiro responsável pela instalação do sistema de luz fez algum erro e, no primeiro uso, todo o sistema queimou. Bonito, né? Resultado: tivemos que locar tudo, de refletores a rack e cabos. A empresa escolhida foi a Studio A, natural de Santos e acostumada a fazer trabalhos naquele teatro. No geral, tudo correu relativamente bem, os caras que encabeçavam a equipe foram super prestativos. Tivemos um problema momentos antes da primeira apresentação em que simplesmente um rack inteiro parou. O bom é que os caras da empresa, já conhecendo o material que têm, trouxeram racks sobressalentes.


Teatro Guaíra -> Fomos pelo Festival de Curitiba e tudo o que posso dizer é: UAU! No dia em que chegamos, haveria ainda um espetáculo acontecendo à noite e montaríamos de madrugada pra apresentarmos no dia seguinte. Pensei comigo, vai dar cagada! Mas a reputação da equipe do Guaíra é antiga e uma das melhores possível. E pelo que pude atestar, fazem jus. Tinha um equipe de umas cinco pessoas à minha disposição pelo que me lembro e os caras são muito rápidos e muito bons. Chega um momento em que acontece uma certa pressão, com cada um deles te perguntando coisas e você tendo que responder e dar atenção a cada um. Mas isso faz parte do que é trabalhar com esses caras. O teatro é incrível, absolutamente gigantesco e todo material que pedimos, o festival concedeu. A mesa que operei foi uma ETC Insight, que até então nem sabia que existia. É um modelo bem parecido com a Expression 3. Foi uma experiência muito boa.


Continuo a relação dos teatros num próximo post. Agora preciso dormir que amanhã o trabalho será puxado.

Câmbio, B.O.

segunda-feira, 12 de março de 2012

Hécuba

Percebo hoje que recaí em meu velho problema: incapaz de lidar com processos de longo prazo, tenho dificuldades em apresentar coisas simples, sentindo sempre a necessidade de oferecer algo dito "completo". Daí meu extenso afastamento desse blog.

Desde o "Crônica", tanta coisa aconteceu: balés israelenses e norte americanos, visita guiada pelo teatro municipal, contrarregragem pra Cia. dos Atores, iluminação de peça evangélica no Festival de Teatro de Angra etc. Foi assim meu segundo semestre, profissionalmente bastante frutífero.

Após a parceria que deu tão certo na "Crônica", fui chamado pra participar do trabalho seguinte do Gabriel Villela: a tragédia grega "Hécuba". Dessa vez, diferente do que aconteceu no trabalho anterior, tive a chance de participar do processo de criação junto à Miló Martins. Trabalhamos durante umas duas semanas no teatro Vivo, no Morumbi. Pudemos acompanhar o processo final de arremate da encenação.

Tivemos complicações durante o processo (como não poderia deixar de ser). Primeiro, o drama dos gobos, que, encomendados na Gobos do Brasil, passaram por um processo extremamente burocrático para que eu os recebesse. Mas nosso maior inimigo foi mesmo o próprio espaço. O teatro Vivo não oferece condições técnicas muito favoráveis. Com um pé direito baixo, há uma distância enorme entre a vara de proscênio e a primeira vara de dentro do palco. O equipamento é bastante limitado, sendo composto por alguns elipsoidais, algumas PAR (110V por acaso, obrigando o uso de séries), pouquíssimos fresnéis e PCs e alguns setlights.

A vara de proscênio não desce e as varas de dentro do palco são manuais por contrapeso. Todas as varas são paraleladas, gerando muitas confusões se não estiver atento à plugagem. Não há varas laterais, sendo usados, improvisadamente, alguns canos que passam na parte inferior da passarela técnica. A primeira medida da Miló foi alugar quase 80% do material utilizado na peça. Baseou boa parte de sua luz em fresnéis (utilizamos mais de 40) e, pensando no pouco espaço oferecido, Source Four PAR.

Houve um certo conflito sobre qual seria a cara dessa luz. Normalmente, pensamos em tragédias como obras soturnas e escuras, trazendo o peso da obra para a estética do espetáculo. Considerando que o peso da obra está em seu próprio caráter trágico e sabendo que o Gabriel gosta de muita luz e pouca sombra em seus atores (Miló já havia trabalhado com ele como assistente do Guilherme Bonfanti anos antes), investimos numa geral bem feita e fria, sendo usado o corretivo L201. Isso, para minha surpresa, ressaltou bastante o desenho do cenário e favoreceu o figurino colorido dos atores. Usamos poucas cores que surgem na forma do L354 e L166 e situações bem específicas. O console de luz utilizado foi uma ETC Express 24/48, onde produzimos um total de 42 cenas operadas em Cue.

Por fim, um dos maiores problemas mesmo que tivemos nesse trabalho, além do espaço físico, foi a relação com o pessoal técnico/administrativo do espaço. Composto por um pessoal, a meu ver, desqualificado e acomodado (com "síndrome de funcionário público"), tivemos sérios problemas ao longo de vários momentos da temporada.

Assim, ficamos de novembro ao início de fevereiro nesse teatro onde, apesar do difícil acesso, ingresso caro, falta de infraestrutura e um texto de tragédia grega que normalmente não é lá muito popular, tivemos uma temporada razoavelmente boa. Uma das coisas que me moveu a escrever essa postagem de hoje é o fato de que terminei hoje a primeira parte da turnê deste mesmo trabalho. Hécuba viaja agora por várias cidades e fizemos hoje nossa terceira e última apresentação no Teatro Alterosa em Belo Horizonte. Semana que vem, Recife (e quem acompanha esse blog sabe que tenho lembranças desse lugar...). E que venham os próximos.





Ficha Técnica


Elenco: Walderez de Barros, Flávio Tolezani, Fernando Neves, Leo Diniz, Luisa Renaux,  Luiz Araújo, Rogério Romera, Nábia Vilela e Marcelo Boffat
Direção, Adaptação e Figurinos: Gabriel Villela
Texto: Eurípedes
Tradução: Mário da Gama Kury
Assistência de direção: César Augusto e Ivan Andrade
Cenografia: Márcio Vinícius
Adereços: Shicó do Mamulengo
Desenho de luz: Miló Martins
Preparação vocal: Babaya
Antropologia da voz: Francesca Della Monica
Direção musical e arranjos vocais: Ernani Maletta
Preparação corporal: Ricardo Rizzo
Operação de luz: Fernando Azambuja
Contrarregragem: Alex Peixoto
Fotos: João Caldas
Direção de Produção: Claudio Fontana


Câmbio, B.O.